terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Grande sertão, mas cadê as veredas?




A vegetação do cerrado e as veredas, tão enaltecidas na obra de Guimarães Rosa, são paisagens cada vez mais raras no Sertão Mineiro.
Sucupiras brancas, araticuns, buritis, pequizeiros e outras árvores características da região estão perdendo espaço para os eucaliptos, que são plantados para produção de carvão (usado de combustível em siderúrgicas como a Gerdau).
“Essas plantações estão destruindo a paisagem do cerrado, sua flora e, conseqüentemente, sua fauna. Elas sufocam as veredas, matando as nascentes de água e acabando com os buritis”, denuncia Pedro Fonseca, o organizador da Comitiva.
Durante a viagem, cerca de 35% da paisagem esteve dominada por eucaliptos, que empobrecem o visual do cerrado.
“Muita gente se apoiou no discurso de geração de renda com o plantio de eucaliptos. Mas, eucalipto só gera emprego e renda nos primeiros dois anos depois do plantio. E hoje em dia, com cada vez mais tecnologias, as máquinas vão substituindo os homens. O resultado é a natureza degradada e a população sem emprego”, ressalta Fonseca.
Conseqüências sociaisA exploração do cerrado mineiro para produção de carvão mostra que além dos impactos ecológicos, produz também conseqüências sociais alarmantes.
O aspecto poético e bucólico do pequeno vilarejo de Andrequicé, em Três Marias, está comprometido com a invasão dos eucaliptos. “Andrequicé é hoje uma cidade descaracterizada. Vem muito homem de fora atrás de emprego temporário e sem nenhum compromisso com o local: bebem cachaça, engravidam meninas de 12 anos e vão embora. Estão apenas de passagem, mas os problemas que deixam na cidade não são passageiros, são permamentes”, explica Fonseca, que é natural de Andrequicé. Segundo ele, o vilarejo tem cerca de 400 habitantes, mas, as vezes, chega a ter mais de mil homens morando por lá temporariamente.
Dona Olga, proprietária da única pensão do local, sente na pele o problema. “Coloquei sua toalha para dentro, porque podiam levar durante a noite. Ultimamente, tem sido assim por aqui”, revela.
Uma farmácia natural em perigo“O nosso cerrado é uma mina de ouro de medicamentos”, salienta Júlio César da Silveira Terra, especialista em plantas medicinais.
Segundo ele, em uma área de um hectare de cerrado virgem, podem ser encontradas, em média, de 150 a 200 espécies variadas de ervas medicinais.
Hoje, um cerrado médio, que já foi utilizado pra corte de madeira, pode-se encontrar – “se tiver sorte”– de 10 a 15 espécies. “Já onde existe monocultura de eucalipto, não se encontra mais nada”, enfatiza Júlio.
Caminhando em sua propriedade, que guarda área de cerrado virgem, Júlio mostrava empolgado a quantidade de ervas medicinais que achava: “essa é a bolsa de pastor, poderoso anti inflamatórios. Aqui temos a lobeira, um excelente remédio para diabete e a cervejinha do campo, que tem efeito diurético…” e lamentava: “O grande problema é que essa farmácia viva está morrendo”.
Júlio ressalta que muitas dessas espécies não são mais encontradas no cerrado. “Trabalho com a reprodução de algumas espécies que estão em extinção”.
Para ele, outra situação preocupante é a exploração estrangeira do cerrado brasileira. “É comum ver pessoas de outras nacionalidades fazendo pesquisas com ervas nossas, absorvendo esse conhecimento popular e levando essas amostras para o exterior. Daí, eles criam a patente em produtos que são regionais. Patenteia o remédio e traz pra vender pra gente. Um absurdo!”.
Paisagem vira carvão“Aqui a gente vê solo só, não vê mais sombra”, prosseia o vaqueiro Chico Maria olhando desolado para parte descampada do cerrado .
Com um punhado de sementes de sucupira branca no bolso – “é bom para a garganta” – Chico Maria conta sobre o tempo em que era carvoeiro e chegava a arrancar 50 árvores por dia. “A gente fica chateado de ver que não sobrou muita árvore em algumas partes. Dava dó de cortar, mas fazer o quê? Eu comecei a trabalhar com 16 anos com isso e nem sabia que ia estragar tudo”.
Em 30 anos como carvoeiro, Chico Maria arrancou muitas árvores do cerrado. “A gente não tinha intenção. Fazia por uns trocadinhos. A gente não tinha estudo, mas agora acompanha esse negócio de ecologia. Agora não arranco mais nenhum pau verde, não”, comenta.
fonte: BOM DIA

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